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COMO SER FELIZ? A Neurociência da Felicidade.

Tens o que precisas para seres feliz?

Tens. A resposta é inequívoca. Tens mesmo. Podes é não saber que já tens tudo o que na prática precisas mesmo para seres feliz. Talvez possas estar à procura da felicidade fora de ti, e nesse caso, julgo que te irá ajudar leres este artigo até ao fim, pois vou-te explicar de onde vem a felicidade e o que podes fazer de forma eficaz para seres feliz.

De onde vem a felicidade?

Se achas que a felicidade vem das coisas que podes adquirir, talvez já tenhas notado que essa é muito efémera e na realidade, esfuma-se pouco depois de teres adquirido o que tanto desejavas. É por esse motivo que, apesar de poderes viver uma vida financeiramente desafogada e teres acesso a um conjunto de bens ou serviços que só o dinheiro pode comprar, seja possível ao mesmo tempo, sentires-te profundamente infeliz. E sabes porquê? A resposta tem a ver com a nossa natureza humana. Com o cérebro que temos, e que não escolhemos, apenas temos porque resulta dos milhares e milhares de anos de evolução da espécie humana. Não sei se já pensaste sobre isto, mas a nossa espécie sobreviveu aos vários elementos da natureza e olha que naquele tempo não tínhamos nada do que temos hoje em dia para nos protegermos. Vivíamos expostos aos elementos e aos animais selvagens. E sobrevivemos. Sabes porquê? Por dois motivos essenciais: somos bons a ter medo, e somos bons a cooperar. Sem o medo, não sinalizaríamos o perigo e já não estaríamos aqui para contar a história. Sem a cooperação, nunca poderíamos ter criado o que criámos. Por isso, é da nossa natureza cooperar e ser compassivos. E por isso somos felizes sempre que o fazemos.

Com isto estou a dizer-te que a nossa felicidade não vem do ter, mas sim do dar. Somos animais compassivos, a nossa natureza é essa e é por esse motivo que seremos tanto mais felizes quanto mais vivermos alinhados com essa natureza.

E isto significa que podemos ser mais felizes, se aprendermos a treinar a nossa mente para isso. Podemos começar só por reparar que a mente tem uma vida própria e constantemente produz acontecimentos mentais, que podem ser pensamentos, emoções ou movimentos. Quando percebemos que os nossos pensamentos são acontecimentos mentais e não realidades, conseguimos ganhar um enorme distanciamento daquilo que a mente nos diz sobre o que temos de ter para ser felizes. Podemos aprender a fazê-lo de várias formas, mas as mais eficazes serão o Mindfulness e/ou a Psicoterapia (lê mais sobre Mindfulness aqui). Aquilo em que acreditas tem um peso muito grande, talvez muito maior do que julgas. Por exemplo, se pensas que só poderás ser feliz quando tiveres algo (um determinado carro, uma determinada casa, um determinado estilo de vida, entre outras coisas) talvez estejas a alimentar em ti um sentido de infelicidade.

Estarás a boicotar a tua felicidade?

Algumas pessoas têm até medo da felicidade. Acham-se não merecedoras, e julgam que sentirem-se felizes é um sinónimo de egoísmo. No entanto, a felicidade põe-nos em contacto com a nossa natureza compassiva, pelo que essa ideia é falsa e o que podemos observar é que as pessoas infelizes são muito mais centradas nos seus problemas e no seu “umbigo” do que as pessoas felizes, que pelo contrário, se conseguem conectar aos outros.

Por isso presta atenção a algumas crenças que poderás ter e que, na prática, estão a boicotar a tua felicidade. Aqui ficam algumas, como exemplo e não com a intenção de esgotar a lista (pode haver muitas outras, que dependem da tua história única):

– “preciso de (algo que não tens) para ser feliz”

– “para ser feliz não posso errar”

– “para ser feliz tenho de ter sucesso ou reconhecimento”

– “não mereço ser feliz”

– “não posso ser feliz”

– “é egoísta ser feliz”

– “é errado ser feliz”

– “sou má pessoa por querer ser feliz”

– “não tenho o que é preciso para ser feliz”… e tantas outras crenças que possas identificar em ti sobre a tua relação com a felicidade.

 

Há uma outra, em particular, da qual gostaria de te falar. Tem a ver com a sensação de que se algo te faz sentir bem, então contribui para a tua felicidade. Não necessariamente. Tal como o Dalai Lama sublinha no seu livro “A Arte da Felicidade” (que te sugeri este mês – espreita aqui) “a satisfação pessoa em si não pode determinar se um desejo ou ato é positivo ou negativo (…) O que distingue um desejo ou ato positivo de um negativo não é a possibilidade de ele lhe proporcionar uma satisfação imediata, mas sim, se ele acaba gerando consequências positivas ou negativas”. Por isso, sabes aquele impulso que sentes para fazer algo que lá no fundo sabes que não é bom para ti? E que é um “guilty pleasure”? Pois bem, esse impulso só é validado por uma pessoa, que és tu. És tu que te autorizas a ceder ou não ao impulso, ao desejo, à vontade, à ira, ou seja o que for que está em questão. Então sugiro que prestes atenção à “vozinha” que dentro de ti está a autorizar que faças escolhas que arruínam a tua capacidade de ser feliz. Nota o que a mente te diz, ou mente, neste caso. Talvez seja algo do tipo “mas eu preciso disto para me sentir bem”. E a verdade é que não precisas. Isso é confundir felicidade com prazer.

 

Então, o que podes fazer para seres mais feliz?

Em primeiro lugar, podes começar por notar que para seres mais feliz em vez de te focares no que não tens, podes escolher focares a tua atenção e cuidado naquilo que já tens. Cuidar do que já tens vai alimentar o teu bem-estar, enquanto que o foco no desejo do que não tens vai alimentar pensamentos de falta, de incompletude.

Podes também aprender sobre o funcionamento da tua mente. Há uma série de coisas que é importante que saibas, tais como que a mente tem uma vida própria, é curiosa, é impermanente, está sempre a produzir acontecimentos mentais e que eles não são necessariamente a realidade, entre outras coisas.

E podes aprender a estimular a tua mente produzir os neurotransmissores da felicidade. Podes fazer isso agora mesmo, no momento presente, pois a única coisa que precisas para seres feliz, já tens: a tua mente.

Se segues o meu trabalho, já estarás a adivinhar que te vou sugerir que pratiques Mindfulness, pois a prática da atenção plena ao momento presente é o que te vai permitir agir de forma consciente e fazer escolhas, momento a momento, que realmente contribuem para a tua felicidade.  Sugiro que voltes a espreitar as atitudes do Mindfulness (7 atitudes mindfulness para praticares no dia-a-dia e 2 Práticas para seres mais feliz e saudável, sem gastares um tostão) e que possas dar uma especial atenção à generosidade, na relação que ela tem com o teu bem-estar (e o dos outros também).

Outra coisa que podes praticar, para além da atenção plena, é a compaixão, já que a nossa natureza humana é compassiva, o que faz com que nos sintamos bem quando aliviamos o sofrimento de alguém. Se notares que tens facilidade em ser compassivo com os outros, mas não contigo, espreita aqui alguns dos motivos pelos quais isso pode estar a acontecer-te.

 

A neurociência da felicidade

Sabes, a tua mente é tendenciosa. Ela vai buscar histórias que já conhece bem e apanha esses atalhos para ser rápida a processar a informação que precisas para lidar com os inúmeros estímulos a que estamos constantemente sujeitos. Começando pelo facto de prestar atenção. Garanto-te que não prestas atenção às mesmas coisas que eu num determinado contexto. E isso acontece porque a própria atenção é um processo altamente seletivo. A nossa atenção depende das nossas “histórias” prévias, dos tais atalhos ou caminhos mentais que percorremos automática e instantaneamente, sem deles termos consciência. Isso acontece porque já foram percorridos inúmeras vezes. E por isso é que estão relacionados com a tua história, que é única. É o axioma de Hebb “quando dois neurónios disparam juntos, ficam interligados”. Começam a construir-se os teus mapas mentais, que vão ter o poder de te fazer interpretar a realidade de uma forma única, o que por sua vez vai determinar o que sentes e como ages, as tuas escolhas, portanto. Por isso é tão importante conheceres a tua mente.

Dado tudo isto, é perante o despertar da consciência dos teus processos mentais, que tens em ti tudo o que precisas para seres feliz.

Além disso, o teu cérebro funciona através do estabelecimento de conexões químicas e elétricas entre os neurónios, e essas conexões vão determinar a forma como te sentes, ao provocarem emoções. Subjacentes a essas conexões estão os neurotransmissores. E é deles que te vou falar a seguir, no sentido de poderes perceber o seu efeito e como podes estimulá-los.

Apresento-te então os neurotransmissores da felicidade: Oxitocina, Serotonina, Dopamina e Endorfina. A seguir, vou-te resumir a função principal de cada um e como os podes estimular.

 

Oxitocina

A oxitocina é a conhecida “hormona do amor”. Tem o poder de nos conectar aos outros do ponto de vista emocional, ao mesmo tempo que provoca a sensação de tranquilidade e segurança emocional. Portanto, quanto mais oxitocina, menos ansiedade e sensação de insegurança. Podemos aumentar os níveis de oxitocina no nosso organismo através da sua ingestão, sob receita médica, mas também de outras formas mais naturais, tais como:

– Toque. Sabe-se que a oxitocina é libertada quando beijamos ou abraçamos, ou nos relacionamos sexualmente com alguém. Por isso, abraça, beija, acaricia e faz amor. E quando não tens ninguém a quem tocar, toca-te a ti. Abraça-te, beija-te, explora o teu corpo e as sensações do toque.

Sol. Sabe-se que a exposição solar também aumenta a libertação da oxitocina, por isso, se puderes, dá um passeio, vai até à varanda, aprecia o sol na tua pele (com as cautelas conhecidas em relação aos raios UV). E se não puderes, talvez possas falar com um/a profissional de saúde para veres a possibilidade de tomares vitamina D.

O relaxamento. Quando estás a praticar algo que te relaxa, estás a libertar oxitocina, por isso vê o que funciona contigo e pratica. Para algumas pessoas isso significa praticar yoga, meditar, tomar um banho quente, ouvir música, cantar, dançar, pintar. E para ti? Conhece-te e descobre o que te relaxa. E pratica-o todos os dias, nem que seja por 10 minutos.

 

Serotonina

A serotonina é maioritariamente parte produzida no intestino e é fundamental para regular o nosso estado de humor – quando ela falta sentimos depressão e solidão. Além de regular o humor, a serotonina é muito importante para nos auto motivarmos, pois impulsiona o apetite, a vida sexual, a memória e a aprendizagem e o sono e serve ainda de mediadora para algumas funções fisiológicas vitais, tais como a circulação sanguínea, entre outras. A serotonina pode ser aumentada através da ingestão de medicação prescrita quando necessária, mas outras ações podem ser tomadas para a estimulares naturalmente, tais como:

– Meditação. Sabe-se que meditar reduz o stress e, portanto, a hormona do stress, que é o cortisol.

– Sol. A exposição solar também aumenta a produção da serotonina, além da oxitocina.

– Autocuidado. Cuida de ti: alimenta-te bem, faz exercício físico, trata da higiene do teu sono, socializa, guarda tempo para não fazeres nada e recebe massagens. Enfim, presta atenção às tuas necessidades e faz aquilo que te relaxa.

Recordar momentos felizes. Então, mantém um diário de bordo, onde os possas registar para quando te sentires mais em baixo poderes recordar os bons momentos. Esta dica é fundamental porque os estados de humor moldam as nossas memórias. Isso quer dizer que, se estás triste, vais ter memórias acessíveis de momentos menos bons.

 

Dopamina

A dopamina está ligada ao “modo fazer” da mente, ao sistema de recompensas, pelo que se traduz em sensações de prazer, e por esse motivo, pode ser altamente viciante. A dopamina é libertada sempre que alcanças algo que desejas. Se a queres estimular, não aconselho que te envolvas em compras sucessivas ou algo do género. Podes, em vez, disso, tornar hábitos alguns comportamentos mais saudáveis, tais como reforçares o teu sistema antioxidante, apostando numa dieta rica em vitaminas C e E, minerais e betacarotenos, praticares exercício físico, meditares ou ainda teres atenção a outro fator:

– Objetivos realistas: se tiveres uma meta a longo prazo, por exemplo, “ser promovido/a” é difícil libertares dopamina, já que ela não é alcançável a curto prazo. Então, sugiro que traces objetivos mais operacionais, dos que podes alcançar no agora. Por exemplo, “entregar hoje o relatório”. Quando traças objetivos concretizáveis a curto prazo, o teu sistema de recompensa é ativado e a dopamina é libertada, o que se traduz em sensações de prazer.

 

Endorfina

A endorfina atenua a dor, sendo muito útil nesse caso e também em situações de stress, pois funciona como um analgésico e ajuda a regular a reação do organismo nessas situações. Para libertares mais endorfinas podes expor-te ao sol, dormir o suficiente e comer alimentos saborosos ou seus precursores, tais como o chocolate, a aveia, sementes de abóbora ou girassol ou pimenta. Mas há outras coisas que podes fazer, tais como:

– Exercício físico intenso. O treino de alta intensidade induz atividade anaeróbica, que estimula a libertação de endorfina na corrente sanguínea.

– Socializar. Passar tempo de qualidade com os outros, seja a falar, a cantar, a dançar, ou até mesmo a trabalhar em equipa ajuda a libertar endorfina.

 

Resumindo… o que podes fazer para seres mais feliz:

– Conhece-te. Presta atenção às tuas necessidades.

– Cuida-te. Alimenta-te, dorme, exercita-te e relaxa.

– Ama-te. Aprende a gostar de tudo o que há em ti, só porque és tu e mereces tratar-te bem.

– Dá-te. Partilha o que é importante para ti com quem te importa. A generosidade encaixa perfeitamente na tua natureza. E a bondade e a gentileza também.

– Inspira-te. Foca a tua atenção naquilo que te apaixona, que te motiva e que te dá propósito. A tua energia vai para onde colocas a tua atenção. Por isso repara se estás a focá-la em coisas que te alimentam ou pelo contrário que te esgotam.

– Socializa-te. Ri, fala, toca, abraça, beija. Somos seres sociais, mamíferos que precisam de cuidar e ser cuidados. Essa é a nossa natureza.

E sobretudo, lembra-te que a felicidade não passa por sentir prazer ou alegria o tempo todo. Isso é a ditadura da felicidade (da qual já te falei noutro artigo, que podes reler aqui), que na realidade só nos faz sofrer mais (lê aqui mais sobre os motivos pelos quais sofremos mais do que devíamos).

Uma pessoa feliz é aquela que se permite navegar na vida com todas as emoções que tem, sejam elas agradáveis ou desagradáveis.

Que possas ser feliz! Se este artigo te fez sentido, partilha com os teus. E vai passando por cá, temos muito que falar!

Até breve,

Sónia

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